O Pelé da arbitragem

by Jornal A Metrópole | 31/07/2018 10:08

Por Marcos Vinicius Cabral
[1]– Eu também gostaria de fazer um agradecimento à TV Globo. Já apitei final de Copa do Mundo e desde então exerço a profissão de comentarista. É muito tempo e gostaria de um descanso porque é um trabalho muito desgastante, disse um emocionado Arnaldo Cézar Coelho ao fim da transmissão no Estádio Lujniki, na Rússia, onde a França venceu a Croácia por 4 a 2 e conquistou seu segundo título mundial.

Filho mais velho de dona Sarah Sabat Coelho – funcionária dos Correios – e de seu Oswaldo Amazonas Cézar Coelho – um médico renomado da cidade – nascia Arnaldo David Cezar Coelho, no Rio de Janeiro, naquele 15 de janeiro de 1943.

Ainda muito jovem, aos 17 anos, começou a exibir seu talento nas praias cariocas e já cursando educação física na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) – apesar do talento natural para ser economista e controlado nos gastos, segundo amigos mais próximos – se tornou árbitro  da Liga de Futebol de Praia no começo da década de 60.

– Jogo em praia é muito difícil. É preciso ser xerife, exercer autoridade, e claro, saber nadar. Era para o mar que eu corria sempre que o pau comia, brinca Arnaldo.

Assim foi por 5 anos – dando braçadas à lá Michael Phelps no mar de Copacabana após correr à lá Usain Bolt dos mais exaltados por alguma falta mal marcada ou pênalti não assinalado – o tempo que levou para se profissionalizar, para 3 anos depois, fazer parte dos quadros da FIFA, em 1968.

Se no meio futebolístico alguns jovens e talentosos jogadores em começo de carreira se espelham em algum ídolo e fazem de tudo para sê-lo, na arbitragem não seria diferente: sim, Armando Marques (1930-2014), foi sua grande inspiração.

Porém, temperamental e polêmico, quase uma antítese do conciliador que era Arnaldo, a lenda da arbitragem (falecido em 2014), fez sucesso na TV, como jurado de programas de auditório.

Assim como seu pupilo, estreou casualmente na Rede Globo em 1989, após ser convidado pelo diretor de jornalismo Armando Nogueira (1927-2010), para falar no Jornal Nacional, sobre os lances polêmicos do jogo entre Brasil e Chile, no Maracanã, nas eliminatórias da Copa do Mundo de 1990, na Itália.

Na ocasião, uma torcedora brasileira chamada Rosenery Mello, lançou um rojão no gramado, provocando a suspensão da partida após o goleiro chileno Rojas sair ensanguentado para o vestiário e o Chile se recusar a voltar a campo.

“Me cortei com uma gilete e a farsa foi descoberta. Foi um corte à minha dignidade”, afirmou o dono da camisa 1 do Chile à época de seu banimento no futebol – só em 2001, a FIFA o perdoaria – que passou por graves problemas de saúde e recentemente fez um transplante de fígado em decorrência de uma hepatite C.

Já a “fogueteira do Maracanã” – que foi capa da edição 172, da Playboy de novembro de 1989 – acabou morrendo em 2011 de aneurisma cerebral, aos 45 anos.

Mas se o seu ingresso à TV foi obra do acaso, não podemos dizer o mesmo do dia 10 de junho de 1978, na cidade de Mar del Plata, no Estádio José María Minella, quando a França venceu a Hungria por 3 a 1, na Copa do Mundo, em solo argentino.

Enfim, o apito talentoso do maior árbitro do país, era soprado pela primeira vez no torneio mais importante do planeta: Arnaldo Cézar Coelho, aos 35 anos, começava a escrever seu nome na história!

Porém, se naquela 11ª edição de uma Copa do Mundo, o Brasil fosse considerado o “Campeão Moral” da competição – Cláudio Coutinho, então treinador do Brasil, se considerava assim após os 6 a 0 da Argentina sobre o Peru – as eliminatórias se tornariam importantes para Arnaldo, que conheceria seu amigo inseparável Galvão Bueno, este, narrador da TV Bandeirantes.

– Galvão é um dos jornalistas mais profissionais que existem, capaz de transformar uma luta simples em um grande acontecimento e nos impressionar com tamanha emoção, elogia o parceiro de longa data.

Contudo, o ápice da carreira veio exatamente na Copa seguinte, a de 1982, em solo espanhol, quando todos acreditavam no Brasil de Telê Santana e ninguém – inclusive Arnaldo – imaginaria que a eliminação pudesse acontecer.

Mas aconteceu e a Seleção Brasileira que encantou o mundo, perdeu por 3 a 2 para a Itália, na “Tragédia do Sarriá”, que o Google mostra em toda pesquisa, belos registros fotográficos nos lances da partida daquele que foi, sem dúvida alguma, um dos maiores times brasileiros de todas as Copas.

Portanto, se centenas de milhares de torcedores brasileiros existentes naquele ano de 1982 – para ser mais exato, 127 milhões, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) – sentiram o golpe, Arnaldo não teve tempo para isso, pois era escolhido para apitar a final do mundial na Espanha.

Sua atuação na vitória da Itália sobre a Alemanha por 3 a 1, foi tão discreta (árbitro bom é o que não aparece, como Arnaldo costuma dizer nas transmissões), que só foi notada na hora do apito final quando entrou no meio de dois italianos, pegou a bola do jogo e com as duas mãos – repetindo os gestos de Bellini em 58, Mauro em 62 e Carlos Alberto Torres em 70 – ergueu a bola como se fosse uma taça.

– Eu queria dar a bola para o garoto (filho do rei da Espanha, Juan Carlos) mas o Havelange não deixou, se justifica, para em seguida dizer que a bola está em sua casa.

Mas não é de estranhar que o árbitro que mais apitou jogos nacionais – 26.190 minutos de jogo ou 291 partidas do Campeonato Brasileiro -, 360 minutos de jogo ou 4 partidas de Copas do Mundo – 1978 e 1982 – e nas outras 3 partidas como assistente, não tenha tido realmente a intenção de presentear o pobre menino fã de futebol.

Mesmo com tanto sucesso no país pentacampeão do mundo, Arnaldo não dependia apenas da atividade de árbitro, que jamais foi regulamentada no Brasil.

No entanto, conseguiu turbinar seus negócios, e depois de ser um simples operador autônomo na distribuidora de valores Multiplic, trabalhou duro e fundou em 1985, a Liquidez, que se tornou uma das maiores corretoras do país, vendida em 2009 para o grupo inglês BGC Partners, algo em torno de R$ 500 milhões, segundo informações veiculadas e também, a TV Rio Sul, afiliada da Globo na cidade de Resende (RJ), que cobre toda a região Sul Fluminense e o Vale do Paraíba.

Pioneiro na profissão de comentarista de arbitragem, Arnaldo, que começou carregando malas com as câmeras na Copa da Alemanha em 1974, para Carlos Niemeyer (1920- 1999), responsável pelo Canal 100, sai de cena em definitivo da TV no fim do ano, quando termina seu contrato com a Rede Globo.

E já deixa em nós uma saudade imensa de quem se acostumou s ouvir “A Regra é Clara”, nas tardes de domingo ou nas quartas-feiras à noite, deste que foi o Pelé da Arbitragem!

Endnotes:
  1. [Image]: http://jornalametropole.com.br/wp-content/uploads/2018/07/arnaldo.jpg

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