Telê me fez chorar algumas vezes

by Jornal A Metrópole | 31/07/2018 10:04

Por Marcos Vinicius Cabral

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Ilustração: Marcos Vinicius Cabral

Era 1982.
A expectativa pela Copa do Mundo da Espanha era enorme e ia tomando conta de cada brasileiro, deixando à mostra nas ruas pintadas com as cores verde e amarelo ou no sorriso que cada um trazia em seu semblante.
Era evidente que o tetracampeonato seria nosso!

E havia como não ser?

Waldir Perez, Leandro, Oscar, Luizinho e Júnior; Cerezo, Falcão, Sócrates e Zico; Serginho e Éder, eram a personificação do futebol mágico de Félix, Carlos Alberto Torres, Brito, Piazza e Everaldo; Clodoaldo, Gérson, Tostão; Jairzinho, Pelé e Rivelino, campeões em 70.

Mas alguns equívocos foram cometidos por Telê Santana ao longo da competição, como o não aproveitamento de Roberto Dinamite em lugar de Serginho e o desequilíbrio no lado direito da equipe, já que um Leandro estava sobrecarregado.

A “Trágedia do Sarriá”, apesar de ter sido uma fatalidade do destino teve a luxuosa colaboração do treinador brasileiro como protagonista e um antagonismo da equipe italiana muito bem treinada por Enzo Bearzot.

Meu primeiro choro foi tão intenso quanto o do menino José Carlos Rabello Júnior, que teve sua foto estampada na capa do extinto Jornal da Tarde pelo fotógrafo Reginaldo Manente, que acabou conquistando o prêmio Esso de jornalismo com a foto.

Passados 4 anos, em 1986, um Brasil envelhecido e desmestificando o ditado de “como o vinho, quanto mais velho, melhor!”, sucumbiu para a França de Platini, no Estádio Jalisco na cidade de Guadalajara, após empatar em 1 a 1 no tempo normal e perder por 4 a 3 nas disputas de pênaltis, naquele 21 de junho, nas quartas de final da Copa do México.

Com olhos incrédulos, chorei pela segunda vez e abraçado ao Carlinhos – um morador de rua que estava assistindo o jogo no meio da multidão – no Barreto, em Niterói.

Aí, entramos na década de 90 e logo de cara, no ano de 1992, o treinador mineiro me fez chorar pela terceira vez, quando aos 34 minutos do segundo tempo, com seus cabelos desgrenhados, saiu sorridente e mastigando um chiclete do banco de reservas para comemorar o gol da virada, aos 34 minutos do segundo tempo, numa cobrança magistral de falta de Raí contra o Barcelona de Zubizarreta, Koeman, Guardiola, Stoichkov e Laudrup, no final do Mundial Interclubes.

– Falar do Telê é muito pouco pelo que ele representou em minha vida e de muitos outros atletas. Serei eternamente grato a tudo que o mestre fez por mim, conta emocionado o ex-meio campista Palhinha, bicampeão mundial pelo São Paulo.

Mas hoje é aniversário do homem turrão, trabalhador, técnico competente e exigente que aprendi a admirar no São Paulo.

Treinador perfeccionista, que fazia questão de cuidadosamente, retirar paquinhas (insetos que parecem gafanhotos e que cavavam pequenas tocas) no gramado do CCT da Barra Funda.

– Essas tocas viram montinhos de barro que não deixam a bola rolar pelo gramado, diria certa vez.

E ao mesmo tempo, tinha o maior cuidado com os ninhos de Quero-quero, que adoravam os campos de treino do tricolor paulista.

Prendado como sempre, cuidava dos ovos dos pássaros como se fossem uma bola.

Telê realmente tinha muita vitalidade. Cobrava aos berros os jogadores, não se importava com ninguém ao seu redor. Não tinha tolerância alguma com erros nos cruzamentos e chutes a gol.

Era chato às vezes, vê-lo parar o coletivo e mostrar como fazia.

Gostava de montar seu time extremamente ofensivo, na busca incessante pela vitória.

Fazia questão de cobrar seus atletas dentro de campo e chamá-los atenção, fora dele.

Fez atletas sem casa própria devolver carros novos que haviam comprado.

E os forçava a investir na moradia, como fez com Denílson, jovem promessa tricolor, quando assinou seu primeiro contrato.

Sem medir as consequências, não perdoava os juízes e apesar de rico, morava no CCT por economia e comodidade.

Era extremamente centralizador, não permitia palpites no seu trabalho com seus comandados.

O bicampeonato mundial no São Paulo resgatou o fracasso nas duas Copas com a Seleção Brasileira.

Ao mestre, fica a saudade de quem soube – como poucos, é bem verdade – ensinar futebol e fazer com que suas equipes, mostrassem uma maneira de vencer e convencer e não ganhar por ganhar.

Obrigado por me fazer chorar nessas três vezes por causa do futebol.

Hoje, se vivo estivesse, estaria completando 87 anos de vida.

Que descanse em paz e permaneça sempre em nossos corações!

Endnotes:
  1. [Image]: http://jornalametropole.com.br/wp-content/uploads/2018/07/tele-santana.jpg

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